Enamoramento, poesia

Imagina !

Sem te ver. Nem cruzar-me contigo. Anos a fio. Desisti de te procurar.
Eras o meu sonho. Em restaurantes e bares. Velas e baladas. Imagina !
Não deixei de sonhar. Fui sonhar para outro lado.
Estava de costas. Tinha perdido a memória. A cada passo havia algo. Que me prendia o olhar. Passo a passo. Pé ante pé. Tinha trocado os sonhos. Por este ballet. Autor. quequeasextafeira

Tinha trocado os sonhos. Por este ballet.

Amantes, vinho

Hey – Branco ou Tinto ?

– Hey ! Aquela interjeição apanha-me de costas. Era a minha cruz. Leve. De ráfia como a minha sacola. O timbre daquela voz. Há muito. Não a ouvia nascer assim. Sol. A diferença estava na respiração. Apenas. As falas eram sempre em monóxido de carbono. Aqui, respira-se vinha. Fala-se em oxigénio. Podia ter me interpelado com um: “Uva”. Estamos a 165 metros de altitude. Sinto o vulcão ativo. Gota a gota saboreio a expiração. Do H. Do E. Do Y. Descubro o silêncio dos anos cinquenta. “Hey!”. Vindo daquele corpo?! Extraordinariamente extravagante… Bebo vinho pelo xisto. Provocatoria(mente) digo: – Património Imaterial da Humanidade.
-Ahahah. Noviça. Muito bem!
Quer vindimar comigo. Hum… Videiras infindáveis. Escolho um socalco. Branco ou tinto? Não pergunto. O melhor vinho é o que vai para o convento. Segue-me. No lagar pisamos as uvas. O aroma aguça o apetite. Sugiro irmos para a pipa. – Hey ! Autor.quequeasextafeira

Do H. Do E. Do Y.

#escola

Aventura da compra de material escolar

O final das férias grandes é sempre uma altura de grandes mudanças e de reajustamento das famílias. Nomeadamente no regresso à escola. A compra de material escolar é o momento mais desejado das crianças e dos pais também. Assemelha-se ao dia da noiva provar o vestido de casamento.
As grandes superfícies têm uma afluência idêntica à da quinzena do Natal.
Entrar para comprar pão, um pacote de leite e fruta, é como entrar num labirinto, num qualquer parque de diversões.
As pessoas atropelam-se e ainda exibem a sua falta de educação. Transportam listas de material, os filhos e companheiro/a. 
Ver lápis, cadernos, dossiês, etc, a entrar e a sair dos carrinhos é frequente. Encontrar adultos e crianças a discutir a cor do estojo à frente da prateleira do papel higiénico, é natural ( já foram empurrados para ali por outros consumidores de estojos). Os pais querem as cores dos seus clubes de futebol no material corrente. Não é este, de todo, o critério da criança. Em meia hora, faz-se uma estatística do clube com mais adeptos, naquela região.
As mães desviam-se das cartolinas retiradas das prateleiras, enquanto discutem com as filhas o aroma das canetas. A mãe quer fazer prevalecer as que cheiram a canela. O sabor dos primeiros beijos que deu (com a chiclete de canela colada ao céu da boca). A filha faz uma birra por causa das de morango, enquanto as vê desaparecer. A criança sabe que é o seu último recurso e resulta sempre.
Ouve-se um pai, muito empolgado, a dizer ao filho que leve o caderno do Homem-Aranha, a borracha do Batman e o lápis do Hulk. O miúdo tem medo de aranhas, não gosta do preto e não vê nada de atraente no Hulk. Quer tudo do Minecraft.
Habitualmente, o último corredor a fazer é o das réguas, compassos, transferidores. Nesse concentra-se pouca gente. Não é atrativo. É tudo igual, só diferem as marcas. No entanto, ouvem-se uns gritos finais “A régua é de 30cm ou de 50cm?”. Alguém responde ao calhas, “30cm”.
Para terminar, passam pela livraria com ar de académicos e escolhem um Caderno  Auxiliar de Estudo (fichas) para fazer ao longo do ano. As editoras são mestres no marketing. Sentem que os filhos vão rebentar a escala da avaliação. Mal cheguem a casa, onde puserem o livro, é exactamente onde o vão encontrar, no fim do ano letivo. Felizmente!
Na face das pessoas vê-se o medo de não conseguirem chegar a tempo aos clipes às bolinhas ou aos pioneses de tutti fruti; a transpiração pelos kms percorridos, para trás e para a frente, entre meia dúzia de corredores; um ar de superioridade intelectual quando o carrinho está a rebentar de materiais; um sorriso convicto de quem faz tudo pelos filhos.
Preparam-se para o sprint final em direção às filas intermináveis para as caixas.
Entre aquele cenário e a IC 19 venha o diabo e escolha.

Tudo isto era tão escusado se as pessoas pensassem. Normalmente, as crianças já sabem o que querem e do que precisam para levar para a escola. Basta estar atento aos seus interesses. Percebe-se logo a coleção dos heróis que vão escolher para o seu material. As listas são prints dos anos anteriores. Os livros de fichas são para verificar a quantidade de ácaros que se acumula na casa, durante um ano letivo. O hipermercado não saiu do mesmo lugar. Mas escusado mesmo era esta brutalidade de materiais.
Para aprender nada disto é necessário. Este frenesim em que os pais se vêem metidos, entrando com uma criança pela mão e saindo com um burro de carga pela outra, só serve os interesses económicos das empresas e fortalece o monopólio das editoras. Como ainda justifica a mediocridade do ensino. Que é o que ninguém vê ou não quer ver! Autor. quequeasextafeira

A caminho de quê?

Amantes

Um minuto de Lua

Ofereço-te. Toda ela. Vestida de chama ardente. Nem o arco-íris tem essa cor. É a mais bela de todas. Nunca, ninguém viu essa cor. Sentas-te. Aparece a teus pés. Magnífica. Soberba. Deslumbrante. Sensual. Confiante. És Rei. Aí a tens. Nascida para ser tua. Só. Só tua. As velas brancas dos barquinhos invejam-te. As andorinhas e o cargueiro. Nada te faz desviar o olhar. Ela enche-se. De orgulho. Junto a ti nada a faz minguar. Poderosa. Majestosa. Nunca mais a vais esquecer. É uma relação cósmica. É a tua oportunidade. Tens uns minutos. Aproveita bem este meu presente. Sabes desfrutar. Sabes bem o que vale a vida. Ela vai subindo por ti. Entras em êxtase. Ela sobe mais. Ergues as mãos ao céu. Sem telescópio. Sem bússola. Não sabes. Suicidas-te ou atiras-te da ponte. O luar ilumina-te. És Deus. És Rei. És Tejo. Ela é só um satélite. É a lua. É o minuto que eu gostaria de ser. Ofereço-te a última lua cheia do Verão. Autor. quequeasextafeira

#destino

Do medo o desejo

Maria Manuel chegou atrasada à idade adulta. Quinze minutos depois das primeiras pancadas de Moliere. Sentou-se na plateia. O camarote era para um público encarcerado. Exibicionista, ostentativo, pretensioso. A escuridão da sala contrastava com os corpos esguios. Nus. Pintados de cores chamativas. Tremeu. Arrependeu-se de não ter a garrafa. A água afastava o medo. Temeu. Temeu ser crude no mar. Num impulso, subiu para o palco. O ator principal levanta as sobrancelhas e acena. Aquele “sim”… Sentiu-o como encorajamento para o suicídio. Esbofeteou o público. Perto dele, via-se gueixa. Do camarote ouviam-se risos de regozijo. Fúteis. Incultas. O público feminino queria-a esfaqueada. Os homens contraíam-se cobardemente. O ator principal assiste como se não bastasse. Suplica pela garrafa. Ele ignora-a. A água que tanto necessitava…estava a afogá-la. Desafia-o. Pinta o corpo. Fica demasiadamente colorido. Com cores para todos os paladares. Pronto. Fez do medo o desejo dos outros. Entornou todos os vinhos do ato da Severa. Deu gargalhadas das atuações em bordéis, motéis. A plateia aplaude a moral enxovalhada dos burgueses. O ator principal observa. A sua face é um misto de satisfação e expetativa. Maria Manuel aproveita a deixa. Pede-lhe mais pedra. Recusa. Não o irá derrotar. Nem pedra. Nem pão. Nem água. Diz-lhe sem dó. Sem agosto, sem garrafa, sem pedra! Bruxo. Cruel. Louco. Grita-lhe em surdina. O público reage com exaltação.

Sai de cena. O ator observa a sua descida. Guarda a garrafa de água no seu camarim. Maria Manuel tinha-a largado na bilheteria. “The show must go on”. O ator foi ganhando maior visibilidade e alcançou os mais prestigiados papéis. Uma qualquer noite, Maria Manuel volta ao teatro. Ouve as pancadas de Moliere. Assiste de pé à estreia. A água muleta. A pedra álibi. Agosto mágico. Divide a glória com o ator principal. Ele no palco. Júpiter. Ela de pé. Hera. Autor quequeasextafeira

The show must go on.

#destino, Amantes, Sem categoria

Perdida por uma bala tua

A tua bala é certeira. Não és perfeito, mas és um excelente atirador. Quem prova da tua bala nunca mais esquece o seu sabor. O teu projétil metálico é de ouro. Como o silêncio. És eficaz. Quem te devolve o tiro deixa as balas perdidas. Lanças um pião. Bebes água da fonte. Apanhas um figo. Esperas tranquilamente pelo castigo. Não está à altura do disparo. Pareces o Marquês do alto do seu cavalo. Beijas e dizes adeus.

Uma vez Mulher, não abates. Não atiras contra ti próprio. Contigo usas mísseis. Já nem a morte te faz perder a cabeça. Não és louco. Mas já te deixaste enlouquecer. Sou livre. Livre o suficiente para te desafiar. -Posso puxar o gatilho? -Experimenta. Afirmas. Peço-te dois dias. Entalas a boca no gatilho. O cano apontado a meu peito. Dois dias. Repito. O teu dedo impaciente. -Quero esgotar todos os sonhos. Uma vida assim. Assim, absurda, não volta mais.Perdida por uma bala tua. Perdida por mil. Toma-me no teu cano. E sê justo para ti… quequeasextafeira

Toma-me no teu cano. Sê justo para ti.

Sem categoria

Allelujah a 14

Meia noite. Sexta-feira. Sexta- feira, um de Janeiro. Verão. O Sol em agosto. Allelujah ! Brindo. Brindo. Os dois cubos de gelo são passas. Peço um desejo. Noutros tempos, incluia-me. Hoje, o desejo é ímpar. A hortelã do mojito nos lábios salgados.

Peço quinze minutos. A areia desliza pelo meu colo e pela nuca. Arrepios de areia. Há um deserto. Assim, há 25 anos. Janeiro em agosto. Levo figos, canela e chocolate de São Tomé. Aos catorze dias. Allelujah! O sol, a brisa, a espuma do mar. Vens anunciar o outono. Tu, O último pôr do sol. Encarnado. Ferro e Fogo. Ferrero e Pedro. “Cem” Vergonha, o desejo. Allelujah! quequeasextafeira

O último Pôr do Sol…Agosto 14
Amantes

O boémio incofesso

O pêndulo alcança o equilíbrio. O corpo inicia um movimento em sentido contrário. Como na penúltima noite, enrolei o último charro. À semelhança de uma artista, com sensualidade dancei. Pedro, o rapaz por quem estava apaixonada e com quem me envolvia. Aplaudiu a ideia, mas não apareceu. A vida boemia, suscitava-lhe repulsa, dizia-me. Estranhamente, era visto com frequência em Las Vegas. Uma cidade que mescla exotismo, boemia e bem estar. Pedro, o errante e vagabundo. Assim o conheciam. Enganou-me. Ludibriou-me.

Eu, mulher balzaquiana, amante de Pedro. Não tinha coragem para confrontá-lo. Pois, receava um “embate” violento. Na verdade, que perdesse o desejo sexual. Uma aflição. Mulher condicionada, sem sim, sem não.

Tomei uma atitude. Comprei duas passagens para o Carnaval de Veneza. O tema era “Il Gioco, l’Amore e la Folia”. Pensei comigo mesma: Pedro não teria coragem de negar este presente. Determinada, e com uma dedicação ardente, observava-o a abrir o envelope. Pedro fez um sorriso meigo e disse: – Querida não posso. Infelizmente, não. Pareceu-me ouvir uma música fúnebre, uma dança de defuntos, um desfile sangrento. Implicitamente havia um sim na sua resposta. O rosto denunciava o verdadeiro desejo de Pedro. O boémio incofesso. Pelo menos para mim. O “Não” era perentório, como se me quissese castigar. Percebi o seu poder soberano. Um direito exclusivo de si mesmo. quequeasextafeira

Mulher, sem sim, sem não.

#destino, Amantes, Relações entre pares.

Uma mentira no seu dedo

Casa-se. Dirige-se para o altar. Invisível aos olhares, leva consigo Madalena. Paixão intensa, profunda, sofredora. Paixão! Durou três estações.

Madalena fora estudar para fora. Conhecera outro jovem e deixou-o. António emagreceu. Perdeu a cor, o ânimo, o vigor.



Estremece ao ouvir a marcha nupcial. Maldito Wagner. A mãe faz-lhe sinal. Vira-se para ver a noiva entrar. Maria do Carmo é a felicidade andante. Sente-se mais seguro. A chave. Tinha três hipóteses. Esquecer. Amar. Desistir. Olha para o pai. Vê um homem orgulhoso. A mãe, por sua vez, depositava toda a Fé no seu casamento.

Ouve em surdina. “Casou-se bem”. Não conheceram Madalena. A sua pétala malmequer. Carmo…”a minha mulher”. Soou mal. Como a música de “Consagração à Nossa Senhora”. Quis o seu nome. Sente-se numa relação de consanguinidade. A aliança. Uma mentira no seu dedo. Uma escritura de comunhão total de bens. Afinal, resumia-se a isso. Conclui António. @quequeasextafeira

                                                  A sua pétala malmequer.

#ilusão, #tesao, sexo, vinho

A ilusão é uma mesa posta

A ilusão é uma mesa posta. Uma garrafa de vinho e um velho transístor. A região demarcada do Douro e a Antena 1. A voz vinda da rádio e o som de cada gole de vinho.

A desilusão é não perder o juízo. Variedade de frutos espalhados na mesa. Mesa posta. Sexualmente rica e variada. A sonoridade da voz em perfeita sintonia com os frutos vaginais.

“Obviamente”. Ouve-se vindo do transístor. Chega o julgamento. Ostras postas na mesa. Em onda hertziana. Aparece o médico hermafrodito. Do vinho a garrafa. Sentença. “Mesa posta com pastéis de bacalhau”. Mas que ilusão é a nossa ? quequeasextafeira

A desilusão é não perder o juízo